Sexualidade

Vaginismo e ansiedade: o medo por antecipação

Olá meninas,

No último depoimento que postamos (Coragem, perseverança e mentalidade positiva: elementos fundamentais no Tratamento do Vaginismo), falamos por cima sobre o que chamamos de “Medo/Dor por antecipação” (MA). Estávamos planejando falar sobre este assunto mais para frente em um post específico sobre características psicológicas comuns em pacientes com disfunções sexuais, mas como o assunto acabou surgindo antes, decidimos fazer uma postagem para não deixar ninguém sem entender do que estávamos falando.

Mas afinal, o que seria esse MA?

Recentemente, criamos e adotamos o termo “Medo/Dor por antecipação” como um critério de classificação de gravidade dos casos de Vaginismo. Na verdade ele nada mais é do que um quadro específico de ansiedade que identificamos em aproximadamente 60% dos casos de Vaginismo (e em alguns casos de Dispareunia) que atendemos aqui na Clínica, onde a paciente acaba não “permitindo” que a Fisioterapeuta a examine ou se aproxime dela por “achar/pensar” que ela irá sentir alguma dor na região pélvica.

Apesar da ansiedade (medo ou apreensão de alguma coisa que ainda não aconteceu) ser uma característica típica do Vaginismo e responsável por alguns efeitos colaterais desagradáveis durante o tratamento (como insônia, fadiga, dificuldades para dormir e relaxar, entre outras), já vínhamos observando à algum tempo que existem uma série de características comportamentais das mulheres com Vaginismo (incluindo variações de tipo e intensidade de ansiedade) que podem ser agrupadas e correlacionadas a uma série de índices do tratamento como: tempo (ou número de sessões) para conseguir introduzir um dedo, tempo para a paciente conseguir começar a fazer os exercícios em casa, tempo para a paciente permitir um toque mais íntimo do parceiro, tempo de tratamento total, etc…

Nos casos mais simples de Vaginismo, a ansiedade (“normal”) é mais perceptível quando a Fisioterapeuta ou a própria mulher já está tocando a região pélvica, além disso, nesses casos, é possível que a mulher consiga uma cura completa em um número relativamente pequeno de sessões de fisioterapia sem a necessidade de acompanhamento psicoterapêutico. No caso das pacientes com MA, é comum que elas apresentem algumas reações extremas muitas vezes só de pensar/fantasiar no tratamento ou em um toque mais íntimo.

As reações de medo intenso mais comuns que observamos são: tremedeira, cruzamento/travamento das pernas, suor frio (mão gelada), sudorese (com calor), choro e riso histérico (apesar de incomum, já aconteceu de uma paciente ficar nesse estado por mais de 30 min). Outras características psicológicas comuns que podem estar associadas a mulheres que apresentam o MA são: medo de realizar exames ginecológicos, de engravidar, de ser abandonada (pelo parceiro), auto-sabotagem, por achar que o caso não tem solução, etc.

Para não deixar nenhuma ponta solta, apesar de não termos dados conclusivos sobre a origem, podemos dizer que o MA independe da causa do Vaginismo, da religião, educação, traumas anteriores, etc.

Aproximadamente metade das pacientes com MA apresenta uma grande dificuldade ao menos na avaliação e nas primeiras sessões de Fisioterapia, o restante, além disso também é bastante “resistente” ao tratamento (fazendo com que a sua duração aumente em pelo menos 20%), sendo que em alguns casos é necessário um acompanhamento psicoterapêutico em paralelo para que seja possível prosseguir com a Fisioterapia. Ocasionalmente atendemos algumas pacientes que relataram já ter iniciado o tratamento Fisioterapêutico antes (com outra profissional), mas sempre acabam desistindo. Nesses casos, quando a mulher opta por não fazer um acompanhamento psicoterapêutico em conjunto (o que não é o ideal), é necessário relembrar constantemente que ela precisa se esforçar bastante para manter um estado mental positivo e perseverante, não apenas por questões do tratamento em si, mas também de saúde mental (cada vez que desiste é uma “derrota”) e financeira. No entanto, em alguns casos, além do Vaginismo podem haver outras questões psicológicas (complementares e independentes) afetando a mulher, e a decisão de não procurar um tratamento psicológico em conjunto pode fazer com que ela “ganhe a batalha mas perca a guerra”, ou seja, consiga se curar do Vaginismo, mas mesmo assim o relacionamento (quando existe) se deteriore, ou que ela não consiga manter um relacionamento (exploraremos esse assunto mais a fundo em um futuro post).

Falamos predominantemente sobre o medo, mas além disso, várias pacientes chegam a se queixar de “dores” na região do assoalho pélvico antes mesmo da Fisioterapeuta chegar perto dela. Para não gerar confusão com casos de Vaginismo originado de uma Dispareunia severa, vamos explicar por que isso acontece. Nesse caso específico, por causa do medo, acreditamos que essas mulheres tendem a contrair intensamente os músculos do assoalho pélvico em momentos específicos (o “ataque” de ansiedade), causando a “dor” (a intensidade varia bastante). Normalmente após alguns exercícios de relaxamento, quando a fisioterapeuta consegue introduzir um dedo ou o dilatador mais fino, essa “dor” desaparece. Isso é muito diferente dos casos de Dispareunia, onde a mulher sente dor por conta de espasmos na musculatura do assoalho pélvico (leia Vaginismo X Dispareunia X Vulvodínia: Como diferenciar?).

Mulheres com MA normalmente relatam vivenciar uma ou mais das seguintes situações:

  • “impossibilidade” ou dificuldade para realizar a sua higiene íntima (simplesmente por medo de se tocar);
  • “pavor” de qualquer sensação “diferente” na região íntima (mesmo que seja um toque externo ou abertura dos lábios vaginais) ou mesmo quando estão na iminência de algum tipo de toque na região (na fisioterapia, sozinha, nos exercícios em casa, com o parceiro);
  • procrastinação do início/realização dos exercícios recomendados para casa;
  • compulsão para remarcar/cancelar consultas (inclusive as sessões de fisioterapia) com frequência;
  • tendência a abandonar o tratamento (seja caseiro ou fisioterapêutico/psicoterapêutico).

Embora não tenhamos certeza da porcentagem de ocorrência dessa característica no total de casos de Vaginismo, acreditamos que deva ser ao menos igual (mas provavelmente superior) ao que observamos aqui na Clínica, e esse provavelmente é um dos fatores que dificultam a procura de ajuda e em vários casos pode ser o responsável por “inviabilizar” os tratamentos que as mulheres tentam fazer sozinhas em casa. Nesses casos é fundamental que elas procurem fazer algum tipo de acompanhamento psicoterapêutico para ajudá-las a lidar com essas questões de medo e ansiedade.

Em vários casos, é necessário que a mulher continue (ou passe a fazer) com a psicoterapia mesmo depois de conseguir uma relação completa. Muitas vezes, os medos e outras questões estão profundamente arraigados à personalidade da mulher e podem não desaparecer após a “cura”. Além disso, podem ser responsáveis por uma série de outras situações desagradáveis como a dificuldade/impossibilidade de ter um orgasmo, e o que é o mais comum (no caso de pacientes de Vaginismo), que é a falta de prazer na penetração.

Só para deixar bem claro, qualquer uma dessas situações (entre outras, como diminuição da libido) podem ocorrer independentemente da mulher previamente ter tido ou não Vaginismo (ou outra disfunção sexual).

Não temos como deixar uma “receita de bolo”, porque cada caso tem as suas particularidades, mas podemos sugerir que as mulheres procurem realizar atividades que visem o foco e auto-conhecimento, como a prática de Meditação, Yoga e Pilates. Além disso, os cuidados com a aparência são fundamentais. Não estamos falando de nada muito radical, uma mudança no corte de cabelo ou penteado, uma peça ou estilo de roupa diferente do usual, uma maquiagem um pouco mais elaborada, enfim, algumas pequenas mudanças no visual podem fazer toda a diferença na auto-estima e auto-imagem da pessoa, e isso por mais simples que possa parecer, faz uma diferença brutal na hora do tratamento.

Falamos sempre para todas as pacientes que não existe caso de Vaginismo (sem evidente causa orgânica) que não possa ser curado, não existe o “caso diferente das outras”. Às vezes existem alguns fatores que complicam e atrasam a cura, mas para todas as mulheres que realmente queiram se libertar (física e psicologicamente), existe ajuda e solução.

Para finalizar, gostaríamos de lembrar a todas que o tratamento do Vaginismo vai muito além de conseguir ter uma penetração completa ou realizar exames ginecológicos, é uma questão de empoderamento feminino, de redefinir como você se vê e descobrir quem você sempre deveria ter sido.

Boa semana a todas! E até o próximo post 😉

 

 

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2 comentários em “Vaginismo e ansiedade: o medo por antecipação

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